quinta-feira, 7 de julho de 2016

Uma análise dos dados de Cesáreas no Brasil - parte 1

Muito se tem falado sobre a elevada taxa de parto cesáreo no Brasil. O assunto voltou à tona com a recente resolução do Conselho Federal de Medicina, que estipula que o parto cesáreo por escolha da gestante não poderá ocorrer antes da 39ª semana de gestação, conforme o critério de maturidade fetal adotado em 2013 pelo Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas.

Através da consulta ao Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) obtivemos os dados de partos em todo o território nacional ao longo dos anos de 1994 a 2014. O gráfico abaixo mostra o percentual de cesáreas ano a ano neste período.

Até o ano de 2003 o indicador se mostra estável, variando em torno de 38%, mas a partir daí vem crescendo ano após ano, encontrando-se na faixa dos 57% em 2014, último ano com dados disponíveis no SINASC.



A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta o Brasil como o líder mundial na taxa de partos por cesárea. Desde 1985, a comunidade médica internacional considerava que a taxa ideal de cesárea estaria entre 10% e 15%, mas em 2015 a OMS divulgou documento recomendando a adoção de uma classificação universal para a medição da taxa de cesáreas (veja aqui).

Segundo o Ministério da Saúde, considerando as características do Brasil, a taxa de referência ajustada pelo instrumento desenvolvido pela OMS estaria entre 25% e 30% (veja aqui)

A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), órgão regulador vinculado ao Ministério da Saúde responsável pelo setor de planos de saúde no Brasil, divulga as Taxas de partos cesáreos por operadora de plano de saúde.

Estão disponíveis os dados de 2013 a 2015. Por diferença com os dados do SINASC obtivemos a informação para o SUS, para o ano de 2014. Os dados estão organizados na tabela abaixo:



Chama a atenção a diferença de 86% para 51% quando analisamos o percentual de cesáreas conforme o parto tenha sido feito através de Planos de Saúde ou SUS, respectivamente.

O índice geral fica na casa dos 57%, levando-se em conta que cerca de 18% do total de partos é feito através de Planos de Saúde e os 82% restantes através do SUS.

Infelizmente o SINASC não traz essa informação, de financiamento do parto (SUS ou plano de saúde), impossibilitando assim analisarmos esse indicador num período mais longo.

Mas voltando à Resolução do CFM, nos perguntamos se de fato as cesáreas estão ocorrendo mais cedo.




A escolha pelo indicador %cesáreas<37 semanas, quando a resolução fala em 39, deve-se ao fato que este dado já está agrupado nas seguintes faixas: menos de 22 semanas; se 22 a 27; de 28 a 31; de 32 a 36; de 37 a 41 e 42 semanas ou mais.

Claramente vemos uma mudança no comportamento a partir de 2011, mas há de se dizer aqui que o sistema traz uma nota, que em 2011 houve uma mudança no conteúdo da Declaração de Nascidos Vivos, com maior detalhamento das informações coletadas.

Não temos como saber se a mudança vista no gráfico acima deve-se a uma mudança de comportamento ou à forma como os dados são coletados e classificados a partir de 2011.

E como será que é o percentual de cesáreas por estados? Vejamos o gráfico para 2014.



Mesmo que o estado de São Paulo não seja o “campeão” no critério de percentual de cesáreas, com um índice de 61%, por esse último gráfico vemos que ele representa mais de um quinto dos nascimentos no Brasil. Vamos ver então com mais detalhes o que acontece por aqui.

Esse será o assunto do nosso próximo post.


Até breve!

Dani

Um comentário:

  1. Excelente material! Achei o site buscando por erros de gráficos em uma matéria da Folha e tive a sorte de cair aqui. Continue o bom trabalho!

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