sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crise hídrica: o céu está devendo.

É, de fato, assustadora a predição que saiu ontem na Folha sobre o esgotamento do Sistema Cantareira marcado para o fim de maio próximo. Veja o infográfico:



Os dados que acompanham a reportagem são bons para mostrar o tamanho da crise atual, mas não me contam toda a história dela. Vamos atrás das informações então...

Pensando no Sistema Cantareira como um tanque, três indicadores me interessam: entrada, saída e nível. No site da Sabesp encontram-se dois deles: entrada (pluviosidade) e nível (percentual armazenado). Há dados desde 2003, mas o problema é que o site mostra um dia para cada consulta, assim, para se obter uma base com todos os dias, seria preciso fazer um robô de extração. Procurei pela internet e achei esse interessantíssimo trabalho (http://mananciais.tk) do Miguel Peixe. Ele usa uma técnica de rasparem para armazenar as consultas, veja que gráfico legal e interativo ele fez:



A história já está contata ali, parece que choveu pouco mesmo em 2014 (os círculos representam a quantidade de chuva no dia). Como eu gosto de mexer com dados, pedi e o Miguel gentilmente me enviou sua base de dados atualizada. Nela encontra-se, também a média histórica para o mês. O que fiz inicialmente foi refazer no Minitab o gráfico acima agrupando os dados por mês. Ficou diferente mas a história é a mesma:



Nunca analisei dados de clima, mas eu queria entender se o regime de chuvas teria causado esse comportamento no nível, então comparei o volume total de chuvas no mês com a média mensal para o mês. Veja o gráfico:



O que vejo nesse gráfico é uma variação grande do valor mensal para a sua média. Já dá pra ver que em 2009 e 2010 choveu bastante no período de chuvas (outubro a março). Vemos também que a temporada de chuvas de 2013/2014 foi a pior da série.

Não convencido, eu pensei que talvez usando a técnica de somas acumuladas (CUSUM) a gente poderia ver melhor as coisas. Para usá-la, criei uma variável da diferença entre o total de chuva no mês e a média para o mês. Essa variável deve ter valores positivos e negativos. Se somássemos acumulando ao longo do tempo esses valores, o total deveria flutuar aleatoriamente ao redor de zero (caso não houvesse períodos prolongados de chuva ou de seca). Veja o que aconteceu desde 2003 e note a equivalência com o gráfico do nível:



Vou tentar descrever a história das chuvas contada nesse gráfico:

2003 começa acumulando chuva no Sistema Cantareira, mas logo o céu começa a nos dever, e ao fim do ano temos quase -400mm sem repor. De 2004 a 2006, o céu empatou com as médias mensais e não conseguiu pagar a dívida de 2003. De 2007 a meados de 2009 a dívida ficou um pouco maior. De julho de 2009 a janeiro de 2010 São Pedro foi generosíssimo, pagou toda a dívida e ainda acumulou +200mm em caixa (ele contribuiu com uns 500mm a mais que o normal). Em meados de 2011 começaram as grandes perdas. Terminamos 2012 com quase -400mm de débito. 2013 foi um ano ruim típico e somou -400mm aos -400mm já devidos, temos -800mm então. Já há uma crise. Aí veio o terrível ano de 2014 com os seus -900mm de débito deixando a dívida em -1500mm.

Conclusão: o céu nos deve 1500mm de chuva no Sistema Cantareira para as coisas voltarem ao normal. Precisamos de três anos espetaculares como o de 2009 pra isso. Um ano espetacular deve ocorrer a cada década. Assim meus amigos, dá pra acreditar na Folha, o Cantareira acabou mesmo, sorry...

Até
Roberto

10 comentários:

  1. Roberto, belíssima análise gráfica, apesar da conclusão.
    Para meu azar duplo, entre 2009 e 2010 trabalhei com serviços de Assistências 24h para veículos, que a demanda tem correlação direta com as chuvas, mas com preço fixo mensal pela frota de veículos das Seguradoras. Você deve se lembrar.

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  2. Assustadora e bem clara a situação que estamos (e vamos) enfrentar daqui para frente.

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    1. Já reduzi pela metade minha conta d'água e vou fabricar uma cisterna caseira. Mas nesse caso não deveria ser cada um por si...

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  3. Parabéns a você, Roberto, pela análise, e ao Peixe, pela camaradagem.

    Estou começando a analisar dados e o Atirei é uma inspiração para mim.

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    1. Obrigado Willo e parabéns pelo blog http://www.encontrodecontas.org
      Mantenhamos contato!

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  4. Beto,

    Mais uma ótima análise.

    O ponto que vale a pena comentar é a inferencia a partir destes dados que fazem o governador e a imprensa...

    Porque é verdade que o Cantareira é um pulmão para compensar a variabilidade das chuvas (variabilidade, this heartless bitch), mas ele deve estar subdimensionado (para a vazão média de retirada, e para a variabilidade que aparentemente está aumentando). Em 2010 o reservatório estava lotado (e a outra consequência do subdimensionamento apareceu, enchentes em várias cidades do interior naquele ano) e desde então entramos num ciclo de anos mais secos (será que é mesmo cíclico ? já vi gente falando que sim sem mostrar os dados...).

    A pergunta é: o que podemos inferir ? O sistema não é o mesmo (desde o ano passado, a Sabesp passou a usar outros dois volumes mortos e anunciou um terceiro... volume morto só pode ser nome dado por engenheiros mais hard que nós dois), e todo mundo projeta um nível qualquer de chuva (qual é ? 2015 está menor que a média de 10 anos, mas maior que 2014... é bom ou ruim ?) e a captação para a grande SP é um terço da que era um ano atrás... Mas qual é mesmo a probabilidade de SP não poder captar, digamos, 80% do que está captando hoje ?

    A realidade é que o Cantareira está mesmo em dificuldades, mas quem de fato será afetado ? São Paulo com certeza, a metrópole precisa de água transposta de outra bacia hidrográfica pois não é sustentável sozinha; mas e Campinas, que não tem reservatório nenhum e capta do que estiver passando no Rio Atibaia ? Aliás, é interessante este ponto: um paulistano que economiza 1 m3 de água representa 1 m3 a mais no Cantareira, mas um campineiro que faça o mesmo esforço significa zero impacto no Cantareira e 1 m3 a mais para o Paraná e Argentina, que não precisavam de mais água...

    Para mim, está é a carência: o governador imagina que os próximos meses serão recordistas em chuva, e a imprensa imagina mais um recorde de seca... entre as duas coisas, a realidade, que será bem dura para a população...

    Abraços,
    Edu

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    1. Ótima análise Edu! Com certeza ele está subdimensionado para a missão que lhe conferem atualmente. O Estado não fez a lição de casa lá atrás que era a transposição que você disse. Curti o comentário sobre os nomes dos volumes mortos. Quem passa perto vê que o que estão mortas são as margens do sistema.
      Abraço!

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