sábado, 15 de março de 2014

Serviço doméstico é o novo vilão da inflação?

Faz pouco tempo era o tomate, no passado era o chuchu, hoje o vilão da inflação é o serviço doméstico. A Folha fez uma análise muito interessante comparando o comportamento da inflação medida pelo IPCA e a variação do custo do item Serviços Domésticos para as famílias (veja reportagem aqui).

O gráfico de tendências abaixo mostra a grande diferença entre essas medidas desde 2004:



A matéria está muito boa, sem rodeios e traz uma informação relevante e completa em si. Mas será que o serviço doméstico é o atual vilão da inflação mesmo? Essa dúvida me despertou uma curiosidade sobre a forma de medição dos índices de inflação. Podemos saber como é feito? Esse é um ponto interessante, hoje qualquer pessoa tem acesso a bases de informação para fazer suas próprias análises. Você que gostaria de praticar e aprimorar sua habilidade de lidar com dados pode fazer isso bem mais facilmente que no passado. Fui, portanto, ao site do IBGE e coletei informações e dados a respeito do IPCA.

Pareceu-me fácil calcular a inflação em princípio. É só comparar preços de produtos e serviços que as famílias consomem de uma mês contra o outro. Aí começam os problemas, quais são esses produtos e serviços? É preciso definir uma cesta que represente os gastos da família brasileira. O IPCA tem uma cesta de mais de 400 subitens agrupados em 9 itens.

Outro problema é definir os pesos dos itens e subitens que indicam quanto contribuem para o total de gastos das famílias. Nada melhor que um gráfico de pizza para representar partes de um todo, né? Em janeiro passado os pesos dos 9 itens eram o seguinte:



Vale dizer aqui que os Serviços Domésticos estão contidos no item Despesas Pessoais contribuindo com quase 4 dos 10,6 pontos percentuais do item. Note como Alimentação e Transportes pesam bastante (somam quase 44%). Voltarei a eles daqui a pouco.

Veja agora o que aconteceu com a variação do custos para cada item da cesta, tendo como referência a média do IPCA do periodo de 2003 a 2013:



Foi bom ver todos os itens juntos. Podemos notar que, nos últimos anos, os vilões da inflação foram os itens Alimentação e Despesas Pessoais. Principalmente Alimentação, porque seu peso é bem maior. E quem "segurou" o IPCA foi Transportes. O item em que o governo pode atuar (controlar) por meios artificiais de política econômica (controle de preços de combustíveis, por exemplo).

Resta nos perguntar: até quando essa política vai resistir ao dragão?

Até
Roberto

5 comentários:

  1. Roberto, acho que habitação deve ter contido a inflação também, a Dilma não segurou os preços da energia?

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    1. Oi Renata, é você tenha razão, me esqueci do pacote Luz...
      Abraço!

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  2. Parabéns pela excelente análise Roberto!

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  3. Caro Roberto,

    Em primeiro lugar, parabenizo-o pela fantástica iniciativa deste blog.

    Em relação a este post, o maior especialista do mundo em 'dashboarding', Stephen Few, condena o uso de gráficos de pizza, sem exceções:
    http://www.perceptualedge.com/articles/visual_business_intelligence/save_the_pies_for_dessert.pdf

    E note que ele não condena "sem provas". ;)

    Cordialmente,
    Marcelo Melgaço

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    1. Marcelo, que legal seu comentário. O Stephen Few é um mestre mesmo e aprendemos muito com ele. Mas nesse caso eu não vou com ele cegamente. Aliás isso dá um pequeno post. Vou preparar.
      Obrigado!

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