terça-feira, 19 de março de 2013

Foi o trânsito ou a cidade que piorou?

Recebi um interessante e-mail do amigo André Duarte sobre a reportagem da Folha deste último domingo cujo título é: "Trânsito piora e SP se iguala ao RJ no trajeto casa-trabalho". Ele questiona a média do tempo de deslocamento casa-trabalho como medida de trânsito em regiões metropolitanas (RM). Veja o gráfico da matéria abaixo:



Sua teoria é de que "Apesar da média ser uma boa medida, como estamos lidando com trânsito, um processo exposto à efeito da teoria de filas, a volatilidade (variação) é tão importante quanto".

Ele explica: "Com a média maior, o desvio padrão é bem maior que as outras capitais de média menor. Isso faz com que o cidadão tenha que sair com mais antecedência para garantir um nível de confiança de 95% de que não se atrasará. Isso não foi explorado na reportagem".

Li a reportagem para respondê-lo e fiquei com mais dúvidas ainda. Decidi ir ao artigo original do IPEA em http://www.ipea.gov.br/

A primeira dúvida é: como se mede o trânsito? Todos os dias ouvimos no rádio a "quantidade" de congestionamento em Km (fornecida pela CET). Mas não é dessa medida que a reportagem fala. A medida plotada no gráfico trata-se da média estimada de tempo gasto para o deslocamento casa-trabalho declarada pelos cidadãos na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Portanto não é uma medida direta da observação do trânsito. Nesse caso, meu caro André, nada há mesmo de informação sobre volatilidade do trânsito. Mas a média citada parece muito boa para comparar as diferentes regiões metropolitanas do Brasil e ao longo do tempo (a pesquisa é feita anualmente desde 1967).

A segunda dúvida é por que a média de RJ e SP são altas? A resposta seria óbvia: o maldito trânsito piorou, e piorou por causa dos carros. O artigo está muito bom, mostra bem os dados de cada RM ao longo dos anos, mas não chegou a explorar uma curiosa tabela inicial para essa análise. Veja:




São pouquíssimos pontos o que torna a análise uma mera exploração, mesmo assim, com esses dados fiz gráficos de dispersão (enxergando o posicionamento de cada RM) para verificar qual das variáveis teria relação com a média de tempo. A hipótese que pensei ser a mais provável era que a taxa de motorização apresentaria a relação mais forte: mais carros por habitante, mais trânsito, você não acha? Pois então veja:



Não. Não parece ter a tal relação. Vejamos, então, a relação com o PIB. Minha hipótese: maior PIB, mais progresso, melhores condições urbanas, melhores resultados de trânsito! Vejamos:



Nada também... E quanto à densidade demográfica? Minha última esperança...


Nossa! Parece haver algo aí! RJ e SP, com maiores densidades populacionais têm maiores tempos de deslocamento. Hummm...

Lembremos do indicador, são respondentes da PNAD. Será que esse tempo maior nas RM mais densas está ligado à falta de planejamento de moradia? As pessoas moram cada vez mais afastadas dos locais de trabalho e tendo cada vez menos recursos públicos de mobilidade. São as cidades que estão piorando, não só o trânsito.

A questão do nosso amigo André ainda está no ar. Alguém se habilita?

Até
Roberto

Um comentário:

  1. Muito interessante a sua linha de investigação da hipótese Roberto. Gostaria de pensar em outra linha, mais ligada à teoria de probabilidade mesmo.

    A distribuição de probabilidade caraterística de tempo é a exponencial (caso particular da Gamma), assim como a lognormal é a de renda.

    Na exponencial, o parâmetro esperança (média) é igual ao desvio-padrão.

    Ou seja, em princípio, pela teoria estatística, não precisaríamos ver os dados para comprovar a hipótese do André: piorou a média, aumentou a variabilidade e, por conseguinte, tem que sair bem mais cedo para chegar 95% das vezes no horário. Óbvio,não entrei no mérito do porquê desta aumento, como você chegou a fazer.

    Esta é a beleza da estatística, explicada no livro do Box, Hunter & Hunter: gero hipóteses, coleto dados, analiso, tiro algumas conclusões e gero novas hipóteses ...

    Abs.

    Formigari

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