segunda-feira, 25 de março de 2013

Brasileiro, quanto faz seu carro?

Quando alguém lhe pergunta quanto faz seu carro, você pensa no consumo em km/l e não em R$/km, certo? A conversão é fácil, por exemplo, se seu carro faz 10km/l de gasolina a R$2,80/l, ele consome R$0,28/km? Não, não é isso. É mais, muito mais.

Você não computou o custo de se ter um carro. Numa análise de consultoria financeira publicado no Estado: "Brasileiro gasta por ano 40% do valor do carro com manutenção e despesas" a gente vê vários itens que entram no nosso orçamento mas que não colocamos na conta do carro. Veja um exemplo da matéria:



Nesse caso o custo com combustível foi de 14%. Então, meu caro, são R$2,00 gastos para cada km rodado!

Ocorre que não foi essa a razão para eu trazer esses dados aqui. O nosso amigo Formigari, com toda sua experiência e visão estatística me escreveu discordando de alguns pontos da matéria:

"Achei que tudo foi superestimado, principalmente o quesito seguro (9% do valor do carro – lembrando 70% dos brasileiros não fazem seguro do carro) e também considerar a parcela do financiamento como despesas e não investimento (até porque boa parte da população não compra carro à vista, pois não tem crédito). Adicionalmente, como se gasta para se deslocar mesmo sem carro (exceção para quem anda de bicicleta ou a pé), dever-se-ia fazer uma estimativa de gastos com locomoção e apenas o incremento de gastos ser considerado."

"Além disso, ao “engordar” as despesas, a manchete passa uma informação equivocada, por indução: em 3 anos, você terá gasto mais do que o valor do carro. Também, para dar conteúdo à matéria, faz-se o uso de conclusões sem apresentar dados com sub-manchetes (ex.: quase um filho). Ou a frase “este valor às vezes é a compra do mês da família”. Que família? Que compras? Quem tem um gasto de combustível de R$ 450,00 gasta quanto em Alimentação, Educação etc. Onde estão os dados? Ou seja, tira-se a conclusão com alguns dados para outras questões, superestimados na minha visão. Hipóteses virando comprovações."

É para quem esperava uma análise mais aprofundada do comprometimento de renda das famílias com transporte privado, ficou a ver navios. Foi muito bem lembrado a informação de que só 30% da frota tem seguro. Fiquei pensando em outras questões, por exemplo, quantas famílias usufruem de transporte privado? Deve depender fortemente da renda, né? Felizmente achei um bom estudo do IPEA a respeito ("Gastos das Famílias Brasileiras com Transporte Urbano Público e Privado no Brasil: Uma Análise da POF 2003 e 2009").Os dados usados são da POF (Pesquisa de Orçamento Familiar). Reproduzo aqui alguns resultados.

A primeira resposta é 51% das famílias usufruem transporte privado. E o gráfico abaixo mostra como a dependência com a renda é forte:



Seguindo um pouco mais no texto acham-se os gráficos do comprometimento de renda com transporte público e privado segundo a renda:





Ainda segundo o artigo, dos gastos com transporte privado, a aquisição de veículos é o item que apresenta maior participação percentual, respondendo por 55%, seguido pelos gastos com combustíveis e manutenção, que respondem por 27% e 13%, respectivamente. Seguros e documentação juntos representam 3,5%. Voltando à matéria do Estadão, só seguros seriam 12,7%.

Nessa comparação de estudos, a gente tem de entender que fazer as contas para um caso em particular nada se pode afirmar sobre o brasileiro em geral. Outros dados estatísticos têm que serem levados em conta.

Agora, nosso amigo Formigari está afiado hein?!

Até
Roberto

terça-feira, 19 de março de 2013

Foi o trânsito ou a cidade que piorou?

Recebi um interessante e-mail do amigo André Duarte sobre a reportagem da Folha deste último domingo cujo título é: "Trânsito piora e SP se iguala ao RJ no trajeto casa-trabalho". Ele questiona a média do tempo de deslocamento casa-trabalho como medida de trânsito em regiões metropolitanas (RM). Veja o gráfico da matéria abaixo:



Sua teoria é de que "Apesar da média ser uma boa medida, como estamos lidando com trânsito, um processo exposto à efeito da teoria de filas, a volatilidade (variação) é tão importante quanto".

Ele explica: "Com a média maior, o desvio padrão é bem maior que as outras capitais de média menor. Isso faz com que o cidadão tenha que sair com mais antecedência para garantir um nível de confiança de 95% de que não se atrasará. Isso não foi explorado na reportagem".

Li a reportagem para respondê-lo e fiquei com mais dúvidas ainda. Decidi ir ao artigo original do IPEA em http://www.ipea.gov.br/

A primeira dúvida é: como se mede o trânsito? Todos os dias ouvimos no rádio a "quantidade" de congestionamento em Km (fornecida pela CET). Mas não é dessa medida que a reportagem fala. A medida plotada no gráfico trata-se da média estimada de tempo gasto para o deslocamento casa-trabalho declarada pelos cidadãos na PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios). Portanto não é uma medida direta da observação do trânsito. Nesse caso, meu caro André, nada há mesmo de informação sobre volatilidade do trânsito. Mas a média citada parece muito boa para comparar as diferentes regiões metropolitanas do Brasil e ao longo do tempo (a pesquisa é feita anualmente desde 1967).

A segunda dúvida é por que a média de RJ e SP são altas? A resposta seria óbvia: o maldito trânsito piorou, e piorou por causa dos carros. O artigo está muito bom, mostra bem os dados de cada RM ao longo dos anos, mas não chegou a explorar uma curiosa tabela inicial para essa análise. Veja:




São pouquíssimos pontos o que torna a análise uma mera exploração, mesmo assim, com esses dados fiz gráficos de dispersão (enxergando o posicionamento de cada RM) para verificar qual das variáveis teria relação com a média de tempo. A hipótese que pensei ser a mais provável era que a taxa de motorização apresentaria a relação mais forte: mais carros por habitante, mais trânsito, você não acha? Pois então veja:



Não. Não parece ter a tal relação. Vejamos, então, a relação com o PIB. Minha hipótese: maior PIB, mais progresso, melhores condições urbanas, melhores resultados de trânsito! Vejamos:



Nada também... E quanto à densidade demográfica? Minha última esperança...


Nossa! Parece haver algo aí! RJ e SP, com maiores densidades populacionais têm maiores tempos de deslocamento. Hummm...

Lembremos do indicador, são respondentes da PNAD. Será que esse tempo maior nas RM mais densas está ligado à falta de planejamento de moradia? As pessoas moram cada vez mais afastadas dos locais de trabalho e tendo cada vez menos recursos públicos de mobilidade. São as cidades que estão piorando, não só o trânsito.

A questão do nosso amigo André ainda está no ar. Alguém se habilita?

Até
Roberto