domingo, 9 de dezembro de 2012

Arrastões em restaurantes: mais uma crise?

Foi um mau exemplo para jovens jornalistas a matéria estampada na primeira página do caderno “Cotidiano 2” da Folha do último sábado. Se eu fosse professor numa escola de comunicação, serviria de material para estudo de caso em classe. Critico não a informação em si, mas o tom de crise empregado para relatar o último arrastão em restaurantes na cidade de São Paulo, o 33º caso deste ano. Por três vezes essa estatística aparece no texto cuja manchete é “Trio armado faz arrastão em restaurante japonês em Moema”. Um mapa com o local de todas as ocorrências também é mostrado:



Nele há uma informação desprezada pela análise do jornalista: a data da ocorrência. Quando você possui esse dado, uma simples e boa análise pode ser feita. A partir das datas podemos extrair o mês de cada caso e fazer um gráfico da frequência mensal de ocorrências. Dê uma olhada no gráfico a seguir e me diga: estamos numa crise de arrastões a restaurantes neste momento?



Outra informação que poderia ser obtida é a demora para acontecer o próximo evento. Fazemos esse cálculo ordenando-se os eventos pela data. No nosso caso, o resultado seria o tempo entre arrastões. Visualizada num gráfico de tendência, essa estatística parece estar bem melhor que nos meses de maio e junho passados, você não acha?

Eu sugeriria então outra manchete para a matéria: “Trio armado quebra jejum de 44 dias sem arrastões em São Paulo”. E um subtítulo sugestivo poderia ser “Recorde desse ano ainda é de 68 dias”. Não ficaria menos terrorista?



Por pura curiosidade, ainda com a data dos eventos em mãos, podemos extrair o dia da semana em que eles ocorreram e fazer um gráfico de barras como abaixo:



Curioso, não? Você teria alguma hipótese sobre a quarta-feira? Parece ser o dia predileto dos bandidos para realizar um arrastão. Penso que, lá pelos meses de maio e junho, um suposto diálogo (ou fone-conferência) entre bandidos poderia ser:

- Então chefia, vamos exprodir um caixa amanhã?
- Num posso, mermão, a agenda tá lotada.
- E quarta?
- Quarta também não, brou. Tem arrastão. Tu não recebeu o invaite?

Até
Roberto

4 comentários:

  1. Isto só reforça minha recente verificação que a mídia distorce a realidade em função da audiência, deixando a isenção de lado. Parabéns pelo post e pelo hilário diálogo entre bandidos.

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    1. Obrigado pelo feedback Monesi, concordo que esse negócio de isenção da mídia é uma busca. Ela busca, busca, e nunca se nos diz quão longe se está desse objetivo.

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  2. Roberto, acompanho frequentemente este espaço, mas por algum motivo esta matéria eu não havia lido.

    Muito boa análise, principalmente no gráfico de frequencia, quando vemos que a matéria da folha foi sensacionalista.
    Por sinal, fez este gráfico com qual programa? Minitab?

    Abraço!

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    1. Acertou, Frederico, foi com o Minitab. Usei o dot-plot da data e aumentei o tamanho dos pontos para ficarem mais visíveis. Abraço!

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