domingo, 6 de fevereiro de 2011

Percentuais podem dar pau na análise

É comum a gente se enrolar com percentuais. Muita gente se confunde para expressar um resultado bruto quando envolve melhoria em percentuais. O Fome Zero, por exemplo, é um programa cujo objetivo era erradicar a fome no Brasil. O Lula conseguiu bater essa meta? Não, mas parece que as coisas melhoraram. Mas, quanto? Segundo o IBGE, a fome é medida pelo percentual da população com insegurança alimentar grave. Veja esse gráfico publicado na Folha em 27/11/2010 e me diga quanto melhorou:



O jornalista afirma em seu texto que "No total, o contingente de brasileiros nessa situação recuou 24,8% entre 2004 e 2009, o que representa 3,7 milhões de pessoas a menos". Será que está certo? Parece que sim, afinal em 2004 tinhamos 14,9 contra 11,2 milhões em 2009, uma diferença de 3,7 milhões. Errado, nessa conta tem que entrar um fator a mais, o aumento da população (cresceu 5,5%).
O que melhorou de fato foi o percentual da população em situação de fome de 8,2% para 5,8%. Se se mantivesse o percentual de 2004 (8,2%), em 2009 haveria um contingente 15,7 milhões de brasileiros com fome, simplesmente devido ao aumento da população.
Então, o certo é dizer que em 2009 havia 15,7-11,2=4,5 milhões de pessoas a menos passando fome no Brasil, e não 3,7 milhões. O "recuo" não foi de 24,8% conforme a Folha disse, e sim de 29,3%. É simples, (5,8%-8,2%)/8,2% = -29,3%.
Resultado: pau na análise!
Deu pra entender, ou enrolei ainda mais a estória dos percentuais?
Mais uma coisa: não daria pra atirar o pau no gráfico da matéria? Deixo como exercício pra galera...

Até
Roberto

8 comentários:

  1. Roberto
    De fato a interpretação dos percentuais é algo que exige muita atenção para que deslizes como o comentado por você não comprometam a conclusão do estudo.
    Uma coisa que me chamou atenção no segundo gráfico, não sei se você reparou, é o esquecimento da região Sudeste.
    Pode???
    Um abraço.
    Formigari

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  2. Roberto
    Realmente a interpretação feita pelo jornalista está errada devido ao crescimento da população.
    Agora uma pergunta, só com dois pontos - 2004 e 2009, se pode fazer a afirmação que houve uma redução efetiva no percentual de pessoas famintas, ou deveríamos ter mais pontos?
    Em tempo: o gráfico é mesmo confuso!

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  3. Carlos, é um bom ponto. Só com 2 pontos não temos noção da variação natural do indicador e portanto não podemos afirmar que é uma melhoria. Mas neste caso em particular, podemos usar um pouco mais de ferramentas estatísticas para nos ajudar na análise. Os dados vem da PNAD, pesquisa nacional por amostra de domicílios, que só perguntou sobre segurança alimentar em 2004 e 2009. No site da pesquisa (http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/seguranca_alimentar_2004_2009/default.shtm)tem um relatório que diz também que reduziu. Eu esperava ver as margens de erro das estimativas para dizer que houve ou não "empate técnico" (como nas pesquisas eleitorais), mas acabei não achando essas informações. Estamos, então, juntos na dúvida... Alguém nos ajuda, please?

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  4. É verdade Formigari, passou-me batido a falta do Sudeste. Eu colocaria o valor brasil como barra de referência também, com outra cor talvez...

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  5. Não deveríamos também considerar a massa de pessoas q alteraram o seu status no período?
    Por exemplo, qdo vc sai de grave para moderado e de moderado para leve, vc acaba distorcendo o numero de cada categoria.
    Então, uma boa analise, acho, seria analisar o bloco dos q passam fome 2004 (39,8%) x os q passam fome em 2009 (34,1%). A analise seria: mesmo considerando o aumento da população, caiu em 5,7% o % os q passam fome no Brasil.
    Acho q a melhor análise para isolar o efeito daquelas pessoas q apenas migraram entre as categorias seria analisar por safra ...
    Faz sentido?
    abs Marcos Marins

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  6. Prezados, não vejo erro na afirmativa do jornalista. Eram 14,9M e caiu para 11,2M, uma redução na população de famélicos de 3,7M, portanto de 24,8%. As análises propostas levam em consideração suposições (se a população mantivesse uma proporção de 8,2% de famélicos e considerando o aumento da população no período). Quem garante que com a evolução econômica do país no período a distribuição de natalidade nesta classificação de qualidade alimentar seria exatamente a mesma?
    Sinceramente, não vejo erro nesta abordagem em termos absolutos utilizada pela reportagem, nem me pareceu que houve tentativa de maquiar a informação.

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  7. Também acho que não houve tentativa de maquiar a informação, mas temos pontos de vista diferentes quanto aos cálculos da reportagem. Obrigado pela contribuição!

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  8. Respondendo ao Marcos Marins, sua pergunta é muito boa, você tem razão ao afirmar que as migrações de faixa e as novas safras promovem variação na distribuição da população nas categorias, mas para fazer essa análise, precisamos tratar a base toda. Caso a pergunta a ser respondida permaneça "Reduziu a fome no Brasil?", não valeria o custo dessa análise. Mas, se a pergunta fosse "Como ocorreu a redução da fome no Brasil?", aí sim.

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