sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Onde estão os motoristas bebuns?

Deu na Folha nessa última quarta-feira:


Vamos exercitar nosso poder de análise, o que você me diz a respeito dos números desse quadro? Em São Paulo há mais motoristas bêbados?

Pra responder, épreciso fazer algumas contas. Se dividirmos o número de flagrados pelos que fizeram o teste temos o gráfico abaixo:


Puxa, para cada mil submetidos ao bafômetro temos 3x mais flagrados bêbados em SP que no Rio. Mas veja só:

Para cada mil abordados, 62,3 fogem da raia no Rio e só 5,2 saem de fininho em SP. E aí qual deve ser a terra de mais motorista bebum?

Aqui sim. É pau no quadro, né gente?
Até
Roberto

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Quem tem medo do dragão da inflação?

Ontem todos os jornais comentaram a alta da inflação. Todos. A maioria em primeira página, como a Folha:

Quanto clima tempestuoso. Será uma ameaça real do dragão da inflação?Fizemos o gráfico de controle* do IPCA mensal, e veja o que temos:



Os 0,37% assustam? A inflação subiu com força? Claro que não. Se nos próximos quatro meses continuarmos com esse valor de 0,37%, conseguiremos 6,0% no acumulado do ano (0,5 p.p. abaixo da meta!). Ocorre que estão todos preocupados com o tal acumulado, mas se esquecem que se trata de um acumulado móvel, isto é, entra o valor atual e sai o valor de 13 meses atrás.

Notem no gráfico de controle que justamente nos meses de junho, julho e agosto do ano passado tivemos inflação praticamente zero. Isso claramente foi uma manobra eleitoral. Esses bons valores agora já não mais fazem parte do acumulado 12 meses, foram substituídos por valores atuais.

Então o que vai acontecer com o acumulado? Simples, para batermos a meta de 6,5%, basta ficarmos com 0,49% mensal ou abaixo disso nos próximos quatro meses (vamos substituir os últimos dados de inflação do ano passado por melhores resultados). Veja a predição usando 0,49% mensal:


Bem diferente do terrível gráfico da matéria da folha:


O que você acha?
Até Roberto
 
 
* veja mais sobre gráficos de controle em: Tiririca, o filósofo.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Titanic num só gráfico

Sempre me incomodou fazer dois gráficos para representar frequências de uma tabela em gráficos de barras. Ora mostro a comparação de valores totais, ora mostro percentuais. Por exemplo, vejam o total de pessoas no Titanic que sobreviveram (e morreram) por sexo e local:

Ok, mas se quisermos realmente comparar o percentual de sobreviventes, temos de elevar as barras para 100% como no gráfico abaixo:

Muito bem... e aí? Aí que na última edição da revista Statistical
Computing & Statistical
Graphics da American Statistical
Association, os autores Andrew Gelman and Antony Unwin mostram uma solução super simples pegando carona nos gráficos de área. Vejam e façam suas próprias análises!

Achei genial como as coisas simples são, e vocês?
Até
Roberto

quarta-feira, 27 de julho de 2011

General Bush x Sheriff Obama

Há um bom exemplo de Gráfico de Área hoje na Folha. Ele foi usado para explicar porque o deficit dos EUA cresceu e como foram as políticas de gastos dos presidentes Bush e Obama.
Só não deu pra entender o uso das cores. Parece que há relação com os tamanhos das áreas, mas a meu ver, deveriam ser usadas para comparar gastos de mesmo tipo nos dois governos.
Já dá pra entender que a política belicosa do Bush mais o tombo que ele levou na crise de 2008 (ou será que foi ele quem fez o mercado desabar?), foi a origem do possível histórico calote da semana que vem.
O que esse gráfico não mostra, é o próprio orçamento, pois se tratam de "novos gastos". A gente tende a chamar o Bush de mais belicoso devido ao alto valor em guerras. Achei um gráfico no NYT que explica porque o Obama "só" economizou US$126 bi em defesa. Veja o número de tropas americanas no Iraque e no Afeganistão ao longo dos governos recentes:
IRAQUE:
AFEGANISTÃO:

E não se nos disse que a caçada mais cara do mundo até hoje foi a do Bin Laden pelo Sheriff Obama...
Até,
Roberto

terça-feira, 5 de julho de 2011

Como utilizar o Princípio de Pareto a nosso favor

No último post apresentamos formalmente o Princípio de Pareto.

Quando consultamos as publicações na mídia observamos algumas oportunidades desperdiçadas em utilizar o gráfico de pareto a nosso favor.


Há pouco tempo o Governo do Estado de São Paulo elaborou um relatório baseado nos dados do PROCON em 2010. Uma das informações levantadas foi a participação das “Áreas de Assuntos” nas reclamações procedentes recebidas em 2010. O gráfico apresentado para representar o estudo foi:



Porém deixo como alternativa para representar este levantamento o gráfico abaixo:



Aqui claramente vemos as principais áreas que são responsáveis pelas reclamações fundamentadas que chegam ao PROCON:

Produtos (linha branca, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, móveis etc.),
Assuntos Financeiros (Empréstimos, Investimentos, Crédito Imobiliário etc.) e
Serviços Essenciais (Telefonia, Água, Luz, Gás etc.);

que juntos somam 83% das reclamações. Eventualmente, se o PROCON fizer uma ação educativa junto às empresas, estas áreas “cobririam” a maior parte das reclamações recebidas.

Para finalizar deixo aqui minhas percepções: o princípio de PARETO pode nos ajudar a potencializar nossas conclusões e ações. Para isto precisamos usar sempre o bom senso e escolher a melhor maneira de representá-lo, de tal modo que a comunicação seja precisa, fazendo com que o interlocutor compreenda rapidamente o fenômeno estudado. O gráfico de pareto é a ferramenta adequada para isso.

Higa

terça-feira, 7 de junho de 2011

Many Eyes: visualização democrática

Na procura por um meio de fazer os gráficos de área, eu dei de cara com a palestra da Fernanda Viégas, uma das maiores autoridades em visualização de dados do mundo. Vale a pena ver o vídeo:

Em seguida, fui direto ao site "Many Eyes" e encontrei seu exemplo de gráfico de área. Ele é simplesmente perfeito pra comparar rapidamente as empresas por setor, subsetor, e seus desempenhos.

Fiquei muito animado com o site e resolvi testar o visualizador de núvens de texto, fiz um experimento com dados de um braintorming cujo objetivo era obter idéias para "trazer o cliente para dentro da loja", veja o resultado:
Em cinco minutos consegui produzir uma imagem das palavras mais usadas nas idéias geradas. O arquivo contém 380 idéias em frases, num total de 2,2mil palavras. Tivemos bastante trabalho na ápoca para organizá-las num diagrama de afinidades.
Essa técnica de núvens pode ter boa aplicação nos "contact centers" para se ter uma visão instantânea da voz do cliente. E que venha o futuro...
Até
Roberto

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ótimo gráfico de uma votação vergonhosa

A Folha de hoje traz um ótimo gráfico no caderno Ciência (C11), mostrando como foi o placar da votação vergonhosa de ontem na Câmara sobre a reforma do Código Florestal. Foram aprovados pontos polêmicos como anistia e regularização de propriedades de desmatadores e isenção de reserva legal. Dá pra acreditar? No gráfico visualizamos rapidamente o posicionamento de cada partido. Confira e espalhe a informação.

Até
Roberto

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Só Lobby, só lobby...

Os jornais de hoje me fizeram zunir na cabeça uma música do Claudinho e Buchecha cuja letra não estou bem certo: Só lobby, só lobby..., acho que era assim. Bem, deixa prá lá, vamos ao post. O assunto é "Como representar graficamente quantidades muito distintas?"

Hoje a Folha (Poder - A4) trouxe um exemplo de gráfico de barras 3D mostrando a diferença de faturamentos da Projeto, empresa de Palocci, em 2006 e 2010, vejam:

Fica evidente a grande diferença de magnitude dos valores. Note que o gráfico de barras diferencia valores somente por uma dimensão, a altura das barras. Outra forma muito interessante de se mostrar diferenças é usando áreas. Um exemplo muito interessante - confesso que fiquei um bom tempo comparando os dados por pura curiosidade - é mostrado no blog www.informationisbeautiful.net/ em que várias quantidades (enormes) de dinheiro, que ouvimos dizer de forma espalhada por aí, foram colocadas juntas para comparação. O autor usa retângulos, cujas áreas representam os valores, cuidadosamente dispostos para que as comparações fiquem facilitadas. Vejam a imagem abaixo (vale mesmo é acessar o original):
Tentei fazer o mesmo exercício com o gráfico do Palocci. Notem que incluí o valor do PIB per capta do Brasil em 2010 para comparação. Vejam se ficou bom:
Aguardo comentários...
Até
Roberto

terça-feira, 10 de maio de 2011

Não se fazem mais pirâmides como antigamente

No post Brasil 2050: o país do futuro chega a terceira idade vimos mais aplicações de histogramas, as pirâmides etárias. Encontramos no site Data Visualization, da GE, mais exemplos delas.

Podemos ver uma animação de como a distribuição da população vai mudando, desde 1950 e como ainda mudará pelas projeções até 2050.

A fonte dos dados é a divisão de população das Nações Unidas, a mesma usada pelo New York Times na matéria The Aging of America, que comentamos também no mesmo post.

A novidade aqui é que podemos comparar, visualmente, dois países. Infelizmente o Brasil não está na lista, mas resolvi brincar um pouco com China e Estados Unidos. Vejam:



Curioso é que com o envelhecimento da população, a pirâmide etária vai, aos poucos, perdendo o formato de pirâmide.

:Dani


terça-feira, 19 de abril de 2011

Paulada no Sobrepeso

Pronto pra discutir nosso post anterior? Teve gente que reclamou das escalas, outros dos "labels" dentro do gráfico, a Renata e o Formigari reclamaram das cores etc. Concordo com tudo. Mas o que me chamou a atenção foram as faixas de peso normal, sobrepeso e obesidade. Para mim, há não somente três faixas coloridas, mas nove regiões com distintas combinações de classificação dos pesos de homens e de mulheres. Veja as nove regiões sobrepostas ao gráfico do post:
Num país da região 4, por exemplo, as mulheres estão na faixa de sobrepeso e os homens estão com o peso normal. Já num país da região 8, ocorre o inverso. Suazilândia e Suíça, apesar de terem nomes parecidos em inglês, Swaziland e Switzerland, estão nessas posições "opostas" como mostra o gráfico abaixo.
A Dani até ralhou comigo dizendo que a definição para um país estar no sobrepeso poderia ser ou homem ou mulher estarem nesta faixa (o pior dos casos). Também concordo com ela, mas para fins de interpretação da informação, acho que os nove quadrantes são mais apropriados.
Agradeço as contribuições!
Até
Roberto

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O peso normal agora é o "sobrepeso"

Encontrei um blog show, alguns anos à frente do Atirei: FlowingData. Vale a pena degustá-lo. Tem lá um post que cita um gráfico interativo do Washington Post mostrando a relação entre os pesos médios de homens e de mulheres em vários países desde 1980 até 2008. Trata-se de um gráfico de dispersão mostrando o percurso da posição de cada país nos anos. Se você clicar no gráfico, verá que a massa dos países saem da posição limite de peso normal para a faixa de sobrepeso. Compare as imagens dos gráficos de 1980 e de 2008:
O gráfico é super bacana, mas seu conteúdo é muito preocupante, o mundo caminha rapidamente para uma população sob efeito dos riscos associados à obesidade. E notem o Brasil como "evoluiu".
Voltando à qualidade gráfica, tem um deslize no gráfico que merece, digamos assim, uma pequena paulada. Alguém conseguiu vê-lo?
Vou publicar o resultado antes do feriado, fiquem tranquilos...
Até
Roberto

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Os gráficos estão por toda parte, cuidado!

O André Bidá, master BB da Eaton, nos enviou vídeo divertidíssimo alertando que os gráficos estão por aí. A qualquer hora podemos ser atingidos por um deles, muito cuidado!



Valeu Bidá! Adorei o gráfico de tendência capturando a moto.
Até
Roberto

segunda-feira, 4 de abril de 2011

O bom e velho histograma.

Para simplificar a vida de todos, a gente selecionou cinco gráficos que resolvem a grande maioria das situações de visualização de dados:


Os quatro primeiros são muito usados, não dão trabalho nem pra ensinar nem pra fazer, e aparecem em ferramentas convencionais, tipo Excel. Agora, o histograma, tão usado na indústria para análise de capacidade de processos, é o "patinho feio" nas empresas de serviços. É raro de se ver. Minha hipótese para isso é: como ele não aparece como uma opção pronta do Excel, então ele simplesmente não existe!

Certa vez, um grupo de melhoria de qualidade numa grande empresa de serviços coletou dados de "quanto tempo demorava para um cliente recorrer ao Procon após ter tido um problema", veja o gráfico que me apresentaram:

Eu disse: "Ué, por que vocês não usaram um histograma?" A resposta foi porque não havia histograma no Excel. Fiz o gráfico abaixo com os mesmos dados com outro software e o grupo achou bem melhor a visualização.
Acho que há uma grande confusão entre histograma e o gráfico de barras. No primeiro estamos procurando pela forma da distribuição de uma variável numérica, enquanto no gráfico de barras, procuramos comparar quantidades em variáveis categóricas.
Uma boa maneira de se entender o uso de um histograma é através da "Máquina de Galton", também chamada de Quincunx. Veja um ótimo exemplo dessa máquina no vídeo abaixo:



Costumo, também, apresentar o histograma como um complemento de visualização dos gráficos de tendência e de dispersão, vejam:

Fica aqui minha dica aos que trabalham na indústria de serviços: aprendam bem os 5 Gráficos de Ouro, e não se esqueçam que existe o bom e velho histograma.

Até,
Roberto

segunda-feira, 28 de março de 2011

Folha x USP: muito barulho por nada

Já são 17 dias de rusgas. Uma série de reportagens provocativas e de respostas aparentemente polidas trocadas entre o jornal Folha de São Paulo e a USP, foi o cenário de uma batalha dissimulada devido a erro de análise e falta de informações. O título disso poderia ser "Muito barulho por nada", não fosse o nome de uma antológica peça de Shakespeare. Acompanhe os fatos:

10/mar/2011 – Reportagem de primeira página diz que USP é preterida por 25% dos alunos selecionados.


10/mar/2011 – Na mesma edição, segue matéria “Um em cada quatro aprovados desiste da USP” tentando explicar esse resultado através de várias hipóteses, sempre com a tendência de apontar desprestígio da universidade em função do suposto grande aumento de desistências.


11/mar/2011 – Nota no site da Fuvest contesta os dados da Folha, apresentando a tabela contendo os “treineiros” considerados indevidamente na análise, e revela que o valor que a Folha deveria ter publicado é de 16% e não de 25%. Veja em: http://www.fuvest.br/vest2011/informes/ii162011.html

16/mar/2011 – No editorial da edição, “Alerta na USP”, o jornal continua cutucando a USP. Mesmo dizendo que dados poderiam estar errados, o jornal levanta três fatores para explicar o fenômeno: alunos optando por faculdades de elite mais prestigiosas, estudantes de poucos recursos preferindo locais mais próximos de seus domicílios ou trabalho e perspectiva de inserção rápida no mercado de trabalho.

23/mar/2011 – A matéria “Fuvest convocou 479 alunos sem ensino médio para a USP” esclarece os dados equivocados: “Esses alunos inflaram dados sobre desistência na USP; mesmo assim, abandono de aprovados é recorde: 16,35%”. Note que, para a correção, usaram outro tipo de gráfico:


24/mar/2011 – Na coluna Tendências e Debates de título “A Preferência pela USP” a pró-reitora da USP, Telma Zorn, se defende explicando que “A complexidade dos fatores nos obriga a realizar uma profunda anamnese, que dê informações precisas sobre as causas do fenômeno" e afirma estar em andamento "consulta direta àqueles que não se matricularam.”

27/mar/2011 – Em “Esnobando a USP” a Ombudsman do jornal puxa a orelha da reportagem porque não seguiu o manual de redação e deveria realizar a correção na sessão “Erramos”.

Duas conclusões, então:
Pau na Análise 1) Antes de se levantar hipóteses a respeito de resultados encontrados, uma hipótese básica deve ser sempre verificada: a de que os dados podem estar incorretos.
Pau na Análise 2) Várias hipóteses foram levantadas, todas vindas de fontes muito especializadas e confiáveis, mas continuam como hipóteses. Há que se esperar o resultado da pesquisa com os desistentes para se realizar uma boa análise. Melhor seria se tivéssemos pesquisas de outros anos para comparação.

Por enquanto, meus amigos, vale mais a pena ver "Muito barulho por nada". Viva Shakespeare!

Até,
Roberto

quinta-feira, 10 de março de 2011

Enquete: Barras ou Dispersão?

Caro leitor, gostaria de saber sua opinião sobre a facilidade de compreender a informação abaixo. Escolha, por favor, o gráfico que melhor descreve o posicionamento da bolsa de São Paulo (Bovespa) em termos de número de aberturas e volume de captação, em relação a outras bolsas do mundo.

Gráfico 1:

Este é o gráfico escolhido pela Folha em 05/03/11 (B1) para ilustrar a matéria "Pequena empresa não chega a bolsa"

Gráfico 2:

Este gráfico foi feito a partir dos dados do gráfico 1, porém utilizando o conceito de gráfico de dispersão, ou o popular X-Y.

Agradeço se deixar sua resposta como comentário, na semana que vem a gente conversa mais a respeito.
Até
Roberto

quinta-feira, 3 de março de 2011

Publicitários, coragem! Mostrem a opinião dos clientes.

Você certamente consegue ver o gráfico na foto abaixo, não é?



Ela compõe uma peça da Bradesco Seguros que está nos jornais desta semana. Ao contrário do post "Quanto vale um Gráfico", em que abordamos o bom uso de gráficos em peças de publicidade, o de hoje vai levantar alguns questionamentos a esse respeito.
Veja a peça toda:



Ela começa dizendo que houve "crescimento", e sem os dados ao longo do tempo, temos de crer nisso (não dá pra confiar no foto-gráfico, rs). O que há é uma enxurrada de dados absolutos e pontuais de indicadores da companhia: faturamento, ativos, pagamentos efetuados, atendimentos realizados, número de segurados, valor total de pagamento de sorteios, número de autos e residência segurados. São esses os dados que me farão confiar nessa instituição? Como é que sei que há algum crescimento? Como é que sei se esses números são bons ou ruins? O gráfico criativo da foto me persuadirá para comprar um seguro da Bradesco?

Falando em persuasão, o prof. Izidoro Blikstein, no seu livro "Como falar em público: técnicas de comunicação para apresentações", diz: "Comunicar não é simplesmente transmitir informações. A comunicação tem a grande função estratégica de gerar efeitos positivos a fim de persuadir o público destinatário a confiar e acreditar no conteúdo, bem como produzir a resposta esperada pelo comunicador (aderir a uma campanha, compreender as informações, tomar uma decisão, apoiar uma iniciativa)". Baseado nisso, pergunto: quem é o destinatário dessa peça? Qual o efeito ou a resposta esperada? Os destinatários têm condições de avaliar as informações apresentadas para agir?

Gostaria de estar mais bem informado para aderir a essa campanha, por exemplo, através de dados relativos aos outros concorrentes, ao crescimento do mercado, dados ao longo do tempo. O que mais me interessa mesmo é a opinião e comportamento dos clientes. Informações de retenção, recompra, idade e intensidade de relacionamento dos clientes atuais, por exemplo. Melhor ainda seriam dados de pesquisas de satisfação de clientes (comparando também a concorrência), dados de reclamações (procons e órgãos de defesa de consumidores, "reclame aqui", imprensa etc).

Há um indicador que pra mim é "matador", o NPS (Net Promoter Score). Ele foi proposto por Fred Reichheld e é bem descrito no seu livro "A pergunta definitiva". Trata-se de pesquisa em que a questão apresentada aos clientes é parecida com "Você nos recomendaria a um amigo?". A partir das respostas, podemos fazer uma relação entre clientes promotores (aqueles que recomendam o produto ou serviço) e clientes detratores (aqueles que não recomendam). Acabei de voltar de uma viajem e respondi uma pesquisa sobre a minha experiência no site de reserva de hotéis booking.com. A pergunta estava lá:




Publicitários, coragem! Cadê essas informações?

Até
Roberto

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Celulares ferem 4 de 8 princípios

O post anterior, aquele dos celulares clandestinos, trouxe um gráfico e o desafio de criticá-lo mais tarde. O gráfico é esse:



Vou exercitar, nessa análise, os oito princípios psicológicos para uma boa comunicação com gráficos de Kosslyn, publicado em seu livro “Graph Design for the Eye and Mind”. Coloquei um resumo deles no final, após a análise do gráfico. Os nomes dos princípios são:

1. Relevância
2. Conhecimento Apropriado
3. Saliência
4. Discriminação
5. Organização da Percepção
6. Compatibilidade
7. Interpretação de Mudanças
8. Limitação de Capacidade

O princípio da Compatibilidade (núm.6) é, para mim, ferido gravemente. Note que os anos são ordenados inversamente ao senso comum (da esquerda para a direita). Confesso que da primeira vez que vi, pensei "esquisito, a venda de celulares esta caindo?". O gráfico deveria ser pelo menos assim:



Outro princípio ferido é o da Discriminação (núm.4), as barras do Brasil são tão pequenas que não dá pra analisar sem ler os números. O princípio da Saliência (núm.3) aparece, pois somos imediatamente atraídos para a enorme barra referente ao mundo. Porém, quem leu a notícia, viu que a informação do mundo é pouco explorada. O importante é a situação do Brasil. Finalmente, o princípio da Relevância (núm.1) é violado pois o objetivo do gráfico na matéria era explicar a evolução do percentual de venda de celulares clandestinos. E por que não colocar logo isso no gráfico? Os leitores têm de fazer a conta se quiserem levar essa informação pra casa.
Minha sugestão de gráfico para ajudar no objetivo da matéria é:



Poderia ser uma gráfico de tendências com duas linhas, mas para três pontos, ele ficaria ruim esteticamente.

Agora, a maior mancada mesmo é o enorme barulho que a matéria faz porque a venda de clandestinos no Brasil está aumentando, mas quem escreveu a matéria não notou que o mundo está com uma taxa maior.

E você, concorda comigo? É pau no gráfico e pau na análise!

Até
Roberto



P.S. Os oito princípios:

1. Relevância
Antes de começar a criar um gráfico, tenha clareza do objetivo de comunicação a ser alcançado. Foque no que é importante a comunicar, evite ruídos ou falta de informação.

2. Conhecimento Apropriado
A comunicação requer que seu público tenha em seu repertório os conceitos, jargões e símbolos que você está usando.

3. Saliência
A atenção é orientada para o aspecto mais “gritante” do seu gráfico, então é esse o ponto que terá a mensagem que você quer passar.

4. Discriminação
Duas propriedades têm de diferir suficientemente para serem distinguidas ou então passarão despercebidas.

5. Organização da Percepção
Nosso sistema visual não é uma câmera, ele guarda pedaços da informação e recompõe quando necessário. As pessoas automaticamente agrupam elementos e então os usam em blocos para economizar memória.

6. Compatibilidade
As formas usadas têm de ser compatíveis com seu significado. Por exemplo, variáveis crescem da esquerda para a direita e de baixo para cima, se invertermos isso, só os atentos às escalas levarão a informação correta.

7. Interpretação de Mudanças
As pessoas esperam que uma mudança de padrão (de cor, de textura, adição ou ocultação de elementos) tenha significado. Mudanças sem propósito causam confusão e ruídos de comunicação.

8. Limitação de Capacidade
As pessoas têm capacidade limitada de retenção de informações e não entenderão a mensagem se houver necessidade de reter mais que o possível.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

1 a cada 5, ou 1 a cada 6 celulares são clandestinos?

Fiquei intrigado com uma matéria publicada hoje na Folha. O tílulo na primeira página do Caderno Mercado é "Celulares clandestinos já são 20% do total", porém, no gráfico abaixo, o subtítulo é "Mercado paralelo de telefones chineses já representa 20% das vendas oficiais no país". Notaram que um não bate com o outro? Confira os números no gráfico da matéria:



Os 20% correspondem simplesmente a vendas no paralelo sobre vendas no oficial, ou seja 11,4/57,2 = 20% (dados de 2010). Portanto, o percentual de vendas clandestinas do total de vendas (clandestinas + oficiais) é de 16,6% e isso não bate com o título da primeira página, pau na análise!
Quantas pessoas não notaram isso e estão com o número de 20% (do total) carimbado na cabeça? Acho que TODAS. Veja, por exemplo, as discussões no IDG NOW! sobre a matéria em: "Um em cada cinco celulares em uso no Brasil tem procedência ilegal". Eles Passaram batido pela informação. Aliás, vamos combinar, mesmo quem leu a matéria no detalhe terá dúvidas das informações, uma hora se fala de celulares em uso, outra de vendas novas, no meio da matéria não há referência de uma pesquisa que traz os números etc... Assim a confiança nas informações vai lá pra baixo.
E tem mais!
Agora comentando o gráfico, há um deslize visual grave nele. Veja se você o descobre. Segue o gráfico no detalhe:



O pessoal do Itaú que fez o curso de "Gráficos Excelentes" comigo na sexta passada tá intimado a opinar, hein?

Até
Roberto

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Índices de Violência em SP param de cair

Finalizando a discussão do post O Jornalista e o "Press Release", de fato, nem sempre as conclusões são as corretas, principalmente quando se comparados apenas 2 pontos, como usado na matéria da Folha pelo jornalista, muito provavelmente induzido pelo Press Release do governo.

O Fábio pegou o espírito da questão: olhando a série temporal, sem maiores análises estatísticas além da análise visual, percebemos que os índices de violência se estabilizaram nos últimos anos. Ou seja, algo novo precisa ser feito pelo Governo e Sociedade, sistemicamente, para que ocorram novas quedas nos indicadores de violência nos últimos anos.

Matematicamente falando, um número é menor que o outro (2010 em relação a 2009), mas tanto sob o ponto de vista estatístico quanto sob o ponto de vista prático, os índices são iguais, ou seja, não houve queda nos indicadores de violência.

O Carlos, no post do Roberto Percentuais podem dar pau na análise , levanta a mesma questão: é correto se tirar a conclusão de que ocorreu uma mudança utilizando-se apenas com 2 pontos? Eu digo, não! Pelo menos não sob o ponto de vista estatístico. Séries históricas são para serem usadas corretamente, não apenas em benefício de uma conclusão. É por isso que as hipóteses estatísticas são realizadas a priori. Mas este é um tema para outra discussão.

Mas fico aqui com a sugestão do Fábio para um novo título para a matéria da Folha, apenas com uma singela alteração: "Índices de Violência em SP param de cair".

Até a próxima.

Formigari

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Percentuais podem dar pau na análise

É comum a gente se enrolar com percentuais. Muita gente se confunde para expressar um resultado bruto quando envolve melhoria em percentuais. O Fome Zero, por exemplo, é um programa cujo objetivo era erradicar a fome no Brasil. O Lula conseguiu bater essa meta? Não, mas parece que as coisas melhoraram. Mas, quanto? Segundo o IBGE, a fome é medida pelo percentual da população com insegurança alimentar grave. Veja esse gráfico publicado na Folha em 27/11/2010 e me diga quanto melhorou:



O jornalista afirma em seu texto que "No total, o contingente de brasileiros nessa situação recuou 24,8% entre 2004 e 2009, o que representa 3,7 milhões de pessoas a menos". Será que está certo? Parece que sim, afinal em 2004 tinhamos 14,9 contra 11,2 milhões em 2009, uma diferença de 3,7 milhões. Errado, nessa conta tem que entrar um fator a mais, o aumento da população (cresceu 5,5%).
O que melhorou de fato foi o percentual da população em situação de fome de 8,2% para 5,8%. Se se mantivesse o percentual de 2004 (8,2%), em 2009 haveria um contingente 15,7 milhões de brasileiros com fome, simplesmente devido ao aumento da população.
Então, o certo é dizer que em 2009 havia 15,7-11,2=4,5 milhões de pessoas a menos passando fome no Brasil, e não 3,7 milhões. O "recuo" não foi de 24,8% conforme a Folha disse, e sim de 29,3%. É simples, (5,8%-8,2%)/8,2% = -29,3%.
Resultado: pau na análise!
Deu pra entender, ou enrolei ainda mais a estória dos percentuais?
Mais uma coisa: não daria pra atirar o pau no gráfico da matéria? Deixo como exercício pra galera...

Até
Roberto

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

O Jornalista e o "Press Release"

É incrível como boa parte dos jornalistas simplesmente acata, sem uma análise mais minuciosa, o conteúdo de alguns Press Releases (aquelas divulgações que empresas e governos fazem para a imprensa com conteúdos, via de regra, favoráveis às mesmas). Provavelmente foi o que aconteceu nesta matéria publicada pela Folha de São Paulo em 01/02/2011 e abaixo reproduzida. Se você é o jornalista e recebe um Press Release com as informações contidas na matéria a seguir, recheada de gráficos e ilustrações, o que você mudaria no título ou conteúdo de sua matéria?
Divida sua opinião aqui. Em breve, direi porque atiro o pau na matéria.

Formigari.



Estado de SP registra queda geral nos índices de violência

ANDRÉ CARAMANTE
AFONSO BENITES
DE SÃO PAULO

Os principais índices de criminalidade caíram em praticamente todo o Estado de São Paulo no ano passado em comparação a 2009.

O número de homicídios dolosos (intencionais) é o menor desde 1999. Também houve queda no número de roubos (5%), latrocínios (roubos seguido de mortes, 16%) e sequestros (13%).

A violência também caiu em 2010 no Rio. Foi a menor taxa de homicídios desde 1991, quando começou a ser feita a estatística da criminalidade no Estado. A taxa de homicídios, porém, é quase o triplo da de São Paulo.

O governo paulista atribuiu a queda da violência à melhoria da economia e a investimentos na segurança. Especialistas, porém, dizem que podem haver outras razões, como a campanha do desarmamento e o envelhecimento populacional.

Em São Paulo, a redução dos homicídios foi puxada principalmente pela Grande São Paulo, onde a queda foi de 14%. Mesmo assim, os números ainda impressionam: foram 4.543 pessoas assassinadas no ano passado contra 4.785 em 2009.



Apesar da queda, o Estado continua sendo considerado uma "zona epidêmica de homicídios" --para a OMS (Organização Mundial da Saúde), existe uma epidemia quando o índice é superior a 10 homicídios para cada 100 mil habitantes. Em São Paulo, foram 10,48 casos.

Os dados foram divulgados ontem pela Secretaria da Segurança Pública, mas o governador Geraldo Alckmin (PSDB) antecipou números sobre homicídios no sábado. Na ocasião, ele afirmou ver dificuldades para reduzir ainda mais esse número.

Para o comandante-geral da PM, Álvaro Batista Camilo, a redução da violência pode ser atribuída à melhora da situação econômica do país e aos investimentos na segurança pública, desde 1999.

Camilo, diferentemente do que disse Alckmin, acredita que a meta é reduzir a taxa de homicídios para dez casos ou até menos por 100 mil habitantes até o fim deste ano.

Marcos Carneiro Lima, chefe da Polícia Civil, acredita que a redução da violência foi impulsionada por uma maior aplicação da tecnologia às investigações. "Mas ainda temos muito o que melhorar", disse Lima.

"O sucesso na redução da criminalidade depende da continuidade da política de segurança pública", disse Luís Flávio Sapori, especialista em Segurança Pública da PUC de Minas Gerais.

A Folha pediu à Secretaria da Segurança Pública os dados dos principais tipos de crime por região da capital, mas a pasta não forneceu.