terça-feira, 9 de novembro de 2010

Não à CPMF, mas cuidado com os números!

Mesmo morta, acho que nunca a CPMF foi tão “Twittada”. Tá todo mundo apavorado com a possibilidade dela voltar, mas tem notícia precisando revisão pra não cair na leviandade.
Neste último sábado (06/11) a Folha publica em Primeira Página com letras garrafais:

Desconfiei das orações, não pela sintaxe, pois parecem duas perfeitas coordenadas sindéticas adversativas, mas fui à caça de dados ou de um gráfico na certeza de que poderiam condená-las quanto ao conteúdo. Dentro do caderno, lá estava ele boiando no meio de uma página:



O seu impacto visual leva a uma confirmação instantânea da manchete. Embora gráfico e manchete concordem entre si, vamos atirar o pau nesse gráfico, e na manchete também...
O problema, como em muitos gráficos, está na escolha da escala. Aqui há algo muito particular. Ao colocar duas curvas de magnitudes bem distantes sob a mesma escala, a visualização da variação fica bastante prejudicada. Não percebemos, por exemplo, qualquer variação na curva da despesa com saúde que é visualmente constante.

A dica neste caso é fazer as duas curvas em gráficos separados tomando um cuidado especial com a escolha das escalas. Elas deverão ter suas amplitudes calculadas em função da curva de maior variação relativa. Para a curva da receita total, temos uma variação de 4,1 pontos percentuais, ou seja, 20% relativamente ao menor valor. Para o gasto com saúde, os 0,16 pontos percentuais de variação correspondem a 10% do valor inicial. Portanto, adotaremos as duas escalas com amplitude de 20% de variação relativa. O Resultado é esse:



A conclusão visual é bem diferente daquela inicial. O gasto da saúde cresceu proporcionalmente à metade do crescimento da receita total.
Pau no gráfico e na Manchete!
Até
Roberto

2 comentários:

  1. Roberto
    Obrigado pela análise, mais uma vez, certeira e direta ao ponto.
    Acresento uma visão importante e também muito comum (e muito equivocada): o gráfico volta apenas até 2003 (não temos memória no Brasil!) e acrescenta estimativas para 2010 e 2011 como fonte "Governo e Congresso". E pior, não indica o valor exato de 2009: pelo gráfico fica parecendo que 2009 foi usado como dado para 2010 e 2011 em gastos com saúde.
    Assim, podemos afirmar que a Folha foi leviana e usou a informação como queria para criar uma realidade ainda mais colorida.
    Se somos ruins para guardar dados históricos, o que podemos dizer então de olhar para frente e fazer estimativas.
    Pau no gráfico, pau da análise, pau na Folha.
    Um abraço.
    Cochran

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  2. Bem colocado, fui às fontes citadas antes de escrever o post e cada uma traz um conjunto diferente de informações. O ilustre colaborador poderá comprovar por si. Como você disse, a Folha pegou o que mais lhe interessava. Mas se for pra atirar, tem que ser pra todo lado mesmo!
    Obrigado, e mande um abraço para o Dr. Box.

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