quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estradas mais violentas? Veja bem, depende...

FSP, 13/06/2010, pg. C3


Tive um chefe que dizia que a resposta padrão de um estatístico para quaisquer perguntas é "Veja bem, depende...". Vejamos bem este caso...

Nos gráficos acima, a Folha induz a pensar que as estradas de SP estão mais violentas devido ao recorde de acidentes e vítimas. Hoje quero discutir não somente a técnica gráfica adotada, mas também as conclusões a que os gráficos nos levam.

Sobre a técnica, adotar um gráfico de tendência para acidentes foi um boa estratégia, mas faltou enfatizar que os dados são dados acumulados nos 4 primeiros meses de CADA ano. Confesso que, só com a observação do asterisco, fiquei confuso e tive de ir aos dados originais para esclarecer isso. O autor poderia melhorar o título, por exemplo "Acidentes de janeiro a abril de cada ano". Outra coisa, não vejo o porquê de se omitir os anos 2004 a 2007 como rótulos do eixo, isso dá um pouco de confusão também. A parte artística (o destaque para o último dado e desenho do carro acidentado) está um pouco exagerada mas chama a atenção para o que se quer focar, gosto disso.
No segundo gráfico, o autor escorregou na escolha do gráfico. Por que não continuar usando gráficos de tendência? Merece pagar 5 flexões por isso! Mas, deixa prá lá, não vou atirar o pau no gráfico...
Como imagino que você é tão curioso quanto eu, vou lhe contar o que achei quando coletei os mesmos dados lá do site da polícia rodoviária (www.polmil.sp.gov.br/unidades/cprv). Encontrei ali as estatísticas mensais acumuladas por ano. Após uma "trabalheira" com esses dados, cheguei aos mesmo dados usados pela Folha. Isso é bom! O que fiz em seguida foi criar outros indicadores, como feridos por acidente e mortos por acidente. Vejam o resultado!!!



Pelo comportamento desses indicadores podemos observar melhoria na relação de vítimas por acidente. Os veículos estão mais seguros? As estradas estão mais seguras? Os motoristas estão mais prudentes?
Engatei a segunda marcha e avancei para outros dados para ampliar a análise. Suspeitei que a enorme venda de veículos nos últimos anos pudesse explicar os recordes. Fui ao site do Detran (www.detran.sp.gov.br/frota/frota_jan.asp) para obter valores da frota de veículos no estado. E quando fiz os indicadores de acidentes por veículos, bingo! As coisas estão melhores após a lei seca!



Resultado: Pau na análise!
Até...
Roberto

3 comentários:

  1. Este post foi show. Realmente, somos induzidos a crer que a segurança nas estradas está muito pior, batendo recorde de acidentes e feridos. Inclusive com um aumento de 20% no número de mortes. Mas, realizando uma análise mais adequada vemos que na realidade as estradas estão mais seguras.

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  2. De fato a última análise ponderando o número de acidentes pelo tamanho da frota é esclarecedora! Parabéns!
    Outra alternativa seria usar o movimento nas estradas de São Paulo. Creio que não seria difícil, visto as inúmeras praças de pedágio.
    Afinal, não é só a frota paulista que circula por aí. Vez ou outra vemos uns Celtas de Curituba e uns Pálios de BH...

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  3. Valeu o esforço de coleta e re-organização dos dados! A análise revelou a fraqueza das análises usuais e aponta alternativas muito interessantes para a avaliação da segurança nas estradas.

    A comunicação ficou muito boa também, pois este é um tipo de post mais "técnico" e a minha predição é de que não ficou ilegível para não-estatísticos.

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