terça-feira, 29 de junho de 2010

Vamos discutir a relação?






Na matéria “No campo da bolsa, Chile vence Brasil”, FSP – 28/06/2010 – Mercado B2, aparecem dados do desempenho das bolsas desde o início da copa nos países participantes dela. Outra informação que acompanha o gráfico é quais países se classificaram para as oitavas. Eu pergunto, o que uma coisa tem a ver com a outra? Será que o desempenho das seleções tem relação com o humor das bolsas dos respectivos países? Isto é, os jogadores ficam motivados com seus ganhos de capital e dão “tudo de si” pra recompensar essa alegria? Ou seria o contrário, quando as seleções estão indo super bem, os mercados é que ficam eufóricos? Mas, esperem, pode ser que a frustração pelos maus resultados na copa é que contamina o nervosismo das bolsas dos países desclassificados.

Está aí mais um assunto futebolístico que todo mundo tem uma explicação DEPOIS de ver os resultados. No futebol é assim, fizemos 3 x 0 no Chile e todo mundo diz que já sabia e esperava esse resultado por causa disso ou daquilo. Mas ANTES da partida, a predição nem sempre era essa. Ponha a mão na consciência...

Voltando às bolsas, o texto diz, com certo receio, que há uma relação bolsa x copa. Achei o repórter bem criativo ao tentar achar alguma relação entre mercado e futebol, mas vamos lá, ele exagerou. Alguém em sã consciência diria, ou melhor, prediria que há essa tal relação ANTES de verificar algum resultado? Alguém pode me explicar isso com alguma teoria?

Incrível. Ao se aplicar um teste de hipóteses (fiz questão de aplicá-los), realmente diríamos que a tal relação é “estatisticamente significante”. Ocorre que aplicamos o teste APÓS o fato ter acontecido. Quando garimpamos informações num bocado de dados, como agora em época de copa do mundo, às vezes achamos relações estranhas ou coincidências pitorescas, mas que não passam da obra do acaso. O problema, então, passa a ser a explicação dessas coisas.

Por outro lado, uma boa análise começa sempre com uma boa pergunta. Por exemplo, num post anterior, discutimos se os acidentes melhoraram ou não após a aplicação da “Lei Seca”. Pudemos discutir os resultados, pois havia uma questão importante a ser verificada com os dados. Quando estamos tentando, através de um conjunto de dados, achar uma relação sobre a qual previamente temos uma predição a respeito baseada numa teoria, isso é fazer uma boa análise.

Sobre a relação bolsa x copa, resta-nos aplicar o bordão de um comercial de cachaça: explica!!??

Sobre predição, predigo que vai dar Argentina e Brasil na final. Veremos!
Até,
Roberto

Esqueceram de mim! O gráfico - parte 1

Na edição 2169 (pgs 86/87) de 16 de junho de 2010, a Veja apresenta uma comparação entre Brasil e China, e de como cada economia reage às altas taxas de crescimento econômico verificadas no primeiro trimestre deste ano.

Começa a matéria, intitulada “o Brasil não pode (ainda) crescer em ritmo chinês”, com a seguinte informação sobre o Brasil: “O total de mercadoria e serviços produzidos pelo país (o produto interno bruto, PIB) cresceu 9% no primeiro trimestre em relação ao mesmo período de 2009, o maior valor para a série histórica, iniciada em 1995.”.

Citar a série histórica e apresentar apenas o último ponto (9%) me deixou com a sensação de que ficou faltando informação. Ponto negativo pela ausência do gráfico!

Restou-me o trabalho de procurar no site do IBGE a tal série. Obtive no site a informação da Série Encadeada do Índice Trimestral, fiz as contas para obter o percentual dos trimestres de referência em relação ao mesmo trimestre do ano anterior e por fim construí um gráfico de tendência.


Fonte: www.ibge.gov.br/home/estatistica/indicadores/pib/



Vendo a série toda, observamos que o recorde de 9% está relacionado à queda do PIB registrada no ano de 2009. Sem essa queda (causa especial, devida a Crise econômica de 2008-2009) não haveria recorde algum, mas vamos em frente...

A matéria faz uma analogia, de cada um dos países sendo um carro de corrida. No artigo, a China seria o carro mais potente, mais seguro, aquele que, mesmo acelerando mais, não assustaria o piloto e esse pisaria ainda mais no acelerador. Já o Brasil, diante dos números, tenderia a por o pé no freio. Para ilustrar, usa velocímetros de carros, com alguns indicadores: taxa de poupança, taxa de investimento, contas externas, produtividade total dos fatores e inflação.




Então vem a pergunta: porque os velocímetros da China vão apenas até 70 e os do Brasil até 100? Essa diferença de escala só confunde o leitor. Tão mais simples, a meu ver, seria usar alguns gráficos de barra e assim explicar as diferenças entre os dois países e por que o Brasil não pode (ainda) crescer em ritmo chinês.



Pau na falta de gráficos!

:Dani

Cornetada no Gráfico!

Vejam este gráfico que veiculou no Estado de São Paulo, 20/06/2010, Caderno C-3.

O gráfico de evolução, na parte superior esquerda, ficaria mais claro com o uso de gráfico de tendência.

Mas, a escorregada foi no uso das ondas sonoras da buzina para mostrar quais os locais são os grandes responsáveis pelos chamados de barulho.

O problema é que há uma distorção da parte gráfica para o que realmente são os dados. Repare que entre Bares e Rua (festas, reuniões) há uma diferença de quase 10% quase o dobro da diferença de 5,5% existente entre Veículos e Casas, mas graficamente tem-se a impressão que a diferença de Veículos para Casas é muito maior que de Bares para Rua. Isto ocorre porque não alteramos somente uma dimensão, alteramos altura e largura, e a figura é percebida como um todo. Para ficar mais claro, reparem na ilustração abaixo:


É o mesmo gráfico. Preenchi o espaço corresponde a casas que é de 31% e que se a representação gráfica estivesse correta deveria ser preenchido na sua totalidade por três espaços de bares 11% e reparem o que acontece. Tufte batizou isto de “Lie Factor” (fator de mentira) do gráfico, onde a forma não representa o valor e podemos ser induzidos a concluir algo que os dados não dizem.

Segue abaixo o gráfico sem a distorção e percebemos que temos três locais importantes e não somente um como ficava a impressão inicial.

Resultado: Pau no gráfico.

Aproveitando o gancho de falar sobre som, e nestes tempos de Copa da África um assunto que está em todo lugar é a vuvuzela, e a Veja de 23/06/2010 na página 92 publicou um gráfico interessante.


Variando apenas uma dimensão (altura), gráfico bonito, claro e principalmente rápido para comunicar a informação, mostra o limite de dano à saúde e que a vuvuzela realmente tem um som infernal.

Abraços,

Satomi

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Manchete 0 x 0 Gráfico

FSP, 22/05/2010, pg. E7




Terminou sem gols o embate entre a Manchete e o Gráfico. Isso porque um fala uma coisa, o outro desmente e vice-versa. Nessa peleja, quem perdeu foi o leitor que ficou sem saber o que opinar com tanta lambança em campo.

Quando li a manchete, estava claro que iria encontrar informações da explosão de consumo de cinema na China em proporções tsunâmicas, como qualquer dado que vem do país vermelho. Mas espere um pouco, vamos apreciar esse espetáculo no gráfico, né?. Cadê? Nada. Nada bate entre gráfico e manchete.

Antes de continuar, vamos logo atirar o pau no gráfico. Há dois pecados básicos: o primeiro é um erro de classificação de duas das barras, note a cor da última barra da Espanha e a última da China, elas correspondem à cor do ano de 2008 quando, pela lógica, deveria ser da cor de 2010. Um segundo pecado é não dispor as barras numa ordem decrescente, feito um Pareto, isso focalizaria melhor a informação para o leitor.

Nem tudo está perdido, as bandeiras dos países fazem bem ao leitor. Maior adesão à informação com baixo esforço.

Voltando à questão da informação, não se encontra no gráfico o aumento no faturamento de 43% de 2008 para 2010, e sim 33% (de 0,9 para 1,2). E o mais aberrante é declarar que o cinema chinês conquista “o mercado” sendo que o gráfico posiciona a China lá embaixo, em penúltimo lugar, com destaque enorme para Japão, Reino Unido e França.

Para tirar todas as dúvidas, temos de recorrer à matéria. Nela o autor explica do que se trata o tal mercado. Trata-se de um saguão do Festival de Cinema de Cannes na França em que são feitos negócios de títulos de filmes. Não há, porém, nenhuma informação de quanto foi a movimentação desse “mercado”.

Resultado: pau no gráfico e pau na manchete, verdadeiros quebra-cabeças.
Até...
Roberto

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Quanto vale um gráfico?

FSP, 01/03/2010, pgs. A6-A7

FSP, 14/06/2010, pgs. A8-A9




Quanto vale um gráfico? Veja bem, agora depende mesmo...
Depende do uso que se faz dele, depende da qualidade dos dados, depende da relevância da informação etc. Quanto ao uso, posso destacar alguns:

  • mostrar resultados
  • apontar focos de atuação
  • fazer controle e gestão
  • aprender sobre assuntos ou processos

Os exemplos que trouxe hoje são para mostrar resultados. Vejam o orgulho dessas companhias ao apresentarem esses gráficos. Estão estampados em página inteira no jornal. Tratados como celebridades. Aliás, quanto vale um gráfico? Nos casos apresentados, vale o cachê de um galático da seleção, de um artista global ou de uma super Top Model. Nem só de rostos felizes, criancinhas risonhas e loiras esculturais se faz propaganda. É... um gráfico quer dizer muita coisa. Ele fala por si. Comunica.

Hoje ninguém levou pau. Vamos comemorar, um brinde ao sucesso dos Gráficos!

Até...

Roberto

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Estradas mais violentas? Veja bem, depende...

FSP, 13/06/2010, pg. C3


Tive um chefe que dizia que a resposta padrão de um estatístico para quaisquer perguntas é "Veja bem, depende...". Vejamos bem este caso...

Nos gráficos acima, a Folha induz a pensar que as estradas de SP estão mais violentas devido ao recorde de acidentes e vítimas. Hoje quero discutir não somente a técnica gráfica adotada, mas também as conclusões a que os gráficos nos levam.

Sobre a técnica, adotar um gráfico de tendência para acidentes foi um boa estratégia, mas faltou enfatizar que os dados são dados acumulados nos 4 primeiros meses de CADA ano. Confesso que, só com a observação do asterisco, fiquei confuso e tive de ir aos dados originais para esclarecer isso. O autor poderia melhorar o título, por exemplo "Acidentes de janeiro a abril de cada ano". Outra coisa, não vejo o porquê de se omitir os anos 2004 a 2007 como rótulos do eixo, isso dá um pouco de confusão também. A parte artística (o destaque para o último dado e desenho do carro acidentado) está um pouco exagerada mas chama a atenção para o que se quer focar, gosto disso.
No segundo gráfico, o autor escorregou na escolha do gráfico. Por que não continuar usando gráficos de tendência? Merece pagar 5 flexões por isso! Mas, deixa prá lá, não vou atirar o pau no gráfico...
Como imagino que você é tão curioso quanto eu, vou lhe contar o que achei quando coletei os mesmos dados lá do site da polícia rodoviária (www.polmil.sp.gov.br/unidades/cprv). Encontrei ali as estatísticas mensais acumuladas por ano. Após uma "trabalheira" com esses dados, cheguei aos mesmo dados usados pela Folha. Isso é bom! O que fiz em seguida foi criar outros indicadores, como feridos por acidente e mortos por acidente. Vejam o resultado!!!



Pelo comportamento desses indicadores podemos observar melhoria na relação de vítimas por acidente. Os veículos estão mais seguros? As estradas estão mais seguras? Os motoristas estão mais prudentes?
Engatei a segunda marcha e avancei para outros dados para ampliar a análise. Suspeitei que a enorme venda de veículos nos últimos anos pudesse explicar os recordes. Fui ao site do Detran (www.detran.sp.gov.br/frota/frota_jan.asp) para obter valores da frota de veículos no estado. E quando fiz os indicadores de acidentes por veículos, bingo! As coisas estão melhores após a lei seca!



Resultado: Pau na análise!
Até...
Roberto

terça-feira, 15 de junho de 2010

Argentina mede 2/3 da Alemanha!!!

FSP, 06/06/2010, Copa 2010



Na Folha de 06/06/2010 aparece esse gráfico tentando driblar a inteligência da gente. Pelo título, o autor tenta nos passar que as seleções cresceram desde a copa passada. Não é verdade. E pela escala das barras, ele nos induz a acreditar que nossos 'hermanos" são tão baixinhos quanto Maradona. Por isso, gente, lá vai...PAU NO GRÁFICO!

Veja o gráfico com as barras no tamanho correto:



Se quisermos focar o leitor nas diferenças de altura, o mais adequado é adotar um gráfico de linhas, e não de barras. Por exemplo:





Nosso amigo da redação perdeu a oportunidade de, com os mesmos dados, comentar a relação entre altura de uma copa para outra. Quanto mais alta a seleção em 2006, mais alta ela é em 2010, veja só:



Se bem que tem uma coisa bem interessante prá gente aproveitar, note que embaixo de cada nome de seleção, há seu respectivo distintivo. E, claro, ajudou o leitor a localizar facilmente quem é quem no eixo, leva aqui um ponto positivo.

Resultado: pau no gráfico!
Até...
Roberto

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Para dados regionais, use um MAPA!

FSP, 05/03/2010, pg. B6


Vejam esse bom exemplo de uso de um mapa para focar o aprendizado do leitor. A notícia da Folha de 05/03/2010 entitulada "Jornada das domésticas chega a 59 horas semanais", explica as diferenças de tempo de trabalho semanal em vários locais do Brasil exercido por empregados domésticos.
Claro que dá pra reclamar um pouco. Por exemplo, a velha discussão da escala aparece aqui, as barras das horas trabalhadas exageram as diferenças. Mas como vem com o "label" acima, isso não atrapalha. O quebra-cabeça do quadro é a ordem dos locais abaixo do mapa, que não segue o mesma ordem norte-sul do Brasil. Veja isso melhorado:

O quadro está bom, não leva pau.
Até...
Roberto