sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Calor é recorde. Mas ainda não mudamos de patamar.

Que calorão, né? É melhor se acostumar, porque o nosso mundo está cada vez com mais febre. No dia 16 de janeiro passado, o NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration) anunciou que 2014 foi o ano mais quente de que se tem registro.

A mídia aproveitou para montar grandes matérias. A Folha incendiou o assunto na sua capa de 17/01:



O Estadão chamou o assunto na capa também, e trouxe na matéria interna um gráfico similar ao do NOAA:



Todos são bons gráficos mostrando a evolução da temperatura. Se bem que o Estadão ficou devendo a escala do eixo Y. Outros veículos trouxeram análises parecidas.

Gostei muito de um gráfico interativo feito por Tom Randall e Blacki Migliozzipara para o site da Bloomberg*. A cada ano, os dados mensais vão sendo sobrepostos aos outros anos, dando a nítida impressão de elevação da Temperatura. Visite o site para ver o movimento.



Eu me preocupei com a análise do comportamento. Intrigado com a relevância de ser 2014 o detentor do recorde, me perguntei se agora estamos "pulando" para uma era mais quente.

Um simples gráfico de controle de individuais pode nos ajudar nisso. Manipulando o Minitab para dividir em períodos a cada vez que um ano sai fora do controle estatístico, cheguei ao gráfico abaixo:



Conclusão: O ano passado, apesar do recorde, faz parte de um período que começou há 17 anos no qual a temperatura terrestre mantém-se estável estatisticamente entre 14,37oC e 14,75oC. Não passamos para outra era como aconteceu em 1998.

Note que a era anterior compreende anos de 1980 a 1997 (18 anos). Antes disso tivemos um período maior de 1937 a 1979 (43 anos).

Portanto, pelo rodar da nossa carruagem (Terra), ainda essa década provavelmente teremos o tal ano que ultrapassará os 14,75oC e inaugurará um período de mais suor e lágrimas.

Até
Roberto

* fiquei sabendo do trabalho pelo Nathan Yau do FlowingData

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Quiz - tem algo errado nesse infográfico?

Não sei, não, acho que a Folha de hoje deu uma mancada. Aí vai um desafio: tente achar um erro nesse infográfico. Veja a página geral, em seguida o dito suspeito de conter um deslize...





Então, descobriu? Aguardo o seu comentário!

Até,
Roberto

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crise hídrica: o céu está devendo.

É, de fato, assustadora a predição que saiu ontem na Folha sobre o esgotamento do Sistema Cantareira marcado para o fim de maio próximo. Veja o infográfico:



Os dados que acompanham a reportagem são bons para mostrar o tamanho da crise atual, mas não me contam toda a história dela. Vamos atrás das informações então...

Pensando no Sistema Cantareira como um tanque, três indicadores me interessam: entrada, saída e nível. No site da Sabesp encontram-se dois deles: entrada (pluviosidade) e nível (percentual armazenado). Há dados desde 2003, mas o problema é que o site mostra um dia para cada consulta, assim, para se obter uma base com todos os dias, seria preciso fazer um robô de extração. Procurei pela internet e achei esse interessantíssimo trabalho (http://mananciais.tk) do Miguel Peixe. Ele usa uma técnica de rasparem para armazenar as consultas, veja que gráfico legal e interativo ele fez:



A história já está contata ali, parece que choveu pouco mesmo em 2014 (os círculos representam a quantidade de chuva no dia). Como eu gosto de mexer com dados, pedi e o Miguel gentilmente me enviou sua base de dados atualizada. Nela encontra-se, também a média histórica para o mês. O que fiz inicialmente foi refazer no Minitab o gráfico acima agrupando os dados por mês. Ficou diferente mas a história é a mesma:



Nunca analisei dados de clima, mas eu queria entender se o regime de chuvas teria causado esse comportamento no nível, então comparei o volume total de chuvas no mês com a média mensal para o mês. Veja o gráfico:



O que vejo nesse gráfico é uma variação grande do valor mensal para a sua média. Já dá pra ver que em 2009 e 2010 choveu bastante no período de chuvas (outubro a março). Vemos também que a temporada de chuvas de 2013/2014 foi a pior da série.

Não convencido, eu pensei que talvez usando a técnica de somas acumuladas (CUSUM) a gente poderia ver melhor as coisas. Para usá-la, criei uma variável da diferença entre o total de chuva no mês e a média para o mês. Essa variável deve ter valores positivos e negativos. Se somássemos acumulando ao longo do tempo esses valores, o total deveria flutuar aleatoriamente ao redor de zero (caso não houvesse períodos prolongados de chuva ou de seca). Veja o que aconteceu desde 2003 e note a equivalência com o gráfico do nível:



Vou tentar descrever a história das chuvas contada nesse gráfico:

2003 começa acumulando chuva no Sistema Cantareira, mas logo o céu começa a nos dever, e ao fim do ano temos quase -400mm sem repor. De 2004 a 2006, o céu empatou com as médias mensais e não conseguiu pagar a dívida de 2003. De 2007 a meados de 2009 a dívida ficou um pouco maior. De julho de 2009 a janeiro de 2010 São Pedro foi generosíssimo, pagou toda a dívida e ainda acumulou +200mm em caixa (ele contribuiu com uns 500mm a mais que o normal). Em meados de 2011 começaram as grandes perdas. Terminamos 2012 com quase -400mm de débito. 2013 foi um ano ruim típico e somou -400mm aos -400mm já devidos, temos -800mm então. Já há uma crise. Aí veio o terrível ano de 2014 com os seus -900mm de débito deixando a dívida em -1500mm.

Conclusão: o céu nos deve 1500mm de chuva no Sistema Cantareira para as coisas voltarem ao normal. Precisamos de três anos espetaculares como o de 2009 pra isso. Um ano espetacular deve ocorrer a cada década. Assim meus amigos, dá pra acreditar na Folha, o Cantareira acabou mesmo, sorry...

Até
Roberto