terça-feira, 17 de março de 2015

Chuto uns 600 mil

Essa é a pergunta polêmica da semana: quantos protestaram em São Paulo no domingo? 210 mil ou 1 milhão?

O Data Folha e a PM/SP divergem enormemente e defendem suas metodologias. Os dois certamente estão errados, a questão é saber quem cometeu o menor erro e de quanto. Pela foto que saiu na Veja não eram poucos:



Vejamos alguns pontos:
  • A Folha contou, por meio de observadores divididos em setores, o número de entrantes na passeata hora a hora. Não ficou claro pra mim a abrangência dessa medição. Outras áreas adjacentes à Paulista foram medidas?
  • A PM/SP calculou, por meio de fotos, a área ocupada e estimou a densidade em 5 pessoas por m2. Para chegar aos 1 milhão, a PM deve ter observado que 200 mil m2 estavam ocupados, então.
  • Hoje a Folha se defende dizendo que a estimativa de 5 pessoas por m2 é muito alta porque seria equivalente a de um vagão do metrô lotado. Usa uma referência da Prefeitura do Rio que diz que densidade média mais comum seria de 3 pessoas por m2.
  • A Própria Folha fez um estudo em 2011 dizendo que a Paulista tem espaço de 135,5mil m2 para ser ocupado em manifestações.
Só posso sentir no ar que há problemas. Minha sensação é que a PM superestimou e a Folha subestimou o número. Considerando os 200 mil m2 da PM (área da Paulista + adjacências) com a densidade de 3 proposta pela Folha, chega-se a 600 mil participantes.

Gostei desse número porque bate com o jeito mais antigo de se fazer uma estimativa usando as já feitas por outros: basta usar a média.

Esse método foi usado pela primeira vez pelo cartógrafo Michael van Langren (1598-1675). Ele calculou a distância entre Toledo e Roma por meios de várias estimativas de que dispunha na época, veja o gráfico que ele fez:



Por esse método chega-se aos mesmos 600 mil.

Respeito quem está realmente preocupado com a precisão desse número, mas está claro pra mim que domingo foi muito mais potente que sexta passada. É essa diferença que eu realmente gostaria de ver.

O Twitter publicou isso num gráfico muito interessante:



Pra você também ficou claro a diferença de barulho?

Até
Roberto

terça-feira, 10 de março de 2015

Dengue em alta no Brasil

Monitorar a Dengue é um problema:

Se você quiser acompanhar on-line os números da dengue no Brasil, não vai conseguir. Mesmo percorrendo uma via-sacra por notícias, portais de governos, não terá sucesso. Você pode tentar extrair dados do DATASUS (o que não é nada mole), mesmo assim os dados estarão desatualizados.

O cidadão navega às cegas e recebe informações somente pontuais. Isso ocorre porque esses dados são totalmente dependentes do registro e envio, pelas pessoas que trabalham na área da saúde, da informação dos casos. Um processo muito descentralizado e que demora um bocado, além de ser sujeito a erros. Claro que o foco é (ou deveria ser) cuidar bem do doente, mas obter esses dados é fundamental para o controle da peste.

Uma solução genial:

Um estudo do Google mostrou que há uma forte correlação entre os números oficiais dos governos e o número de procura por palavras-chaves relacionadas à dengue na sua ferramenta de busca. Um modelo simples de regressão prediz com precisão surtos epidêmicos da doença em vários países. Veja os dados atualizados ontem para o Brasil:



Então, parece que além de recessão, inflação, crise hídrica, crise política, petrolão..., vem aí um ano difícil também pela incidência de dengue.

Fica a dica: sempre que você tiver dificuldade de monitorar indicadores cujos dados são difíceis ou complexos de se obter, procure por indicadores alternativos que possam ter alta correlação com os originais. Você pode economizar muito esforço e investimento para sua equipe.

Até
Roberto

Obs. 1: Gostei muito do gráfico do Google porque mostra o comportamento sazonal da dengue. Não entendi porque não começaram a escala X em janeiro. Assim, tentei reproduzir o gráfico com o calendário normal. Veja só:



Obs.2: Explore mais o Google Dengue Trends clicando no gráfico abaixo:

sexta-feira, 6 de março de 2015

Inflação descontrolada

Quando adicionamos linhas de referência de variação comum (ou variação natural) de um indicador a um gráfico de tendência, a gente cria uma poderosa ferramenta de gestão chamada Gráfico de Controle.

Os Gráficos de Controle soltam alertas quando um indicador apresenta desvios diferentes da sua variação comum. É por meio desses alertas que direcionamos nossas ações pontuais de reação e correção. Quando não há alertas, atuamos no sistema como um todo buscando formas de melhorá-lo.

No post Controle da Inflação versão Atirei, propusemos um gráfico para controle do IPCA levando-se em conta sua variação sazonal. Hoje saiu mais um resultado da série e veja a nossa situação:



Aviso a todos os brasileiros que estamos navegando de maneira descontrolada quanto a inflação. Os dois primeiros meses deste ano estão acima da referência estatística, evidenciando o descontrole.

Quando há um desvio pontual no indicador, os manuais recomendam que a gente localize a causa específica que gerou o problema para eliminá-la. Pergunto: há uma causa específica? Como eliminá-la?

Em 2014 houve só um alerta no mês de março, esse desvio foi pontual? Sabemos que o IPCA voltou à região de variação comum, mas as medidas que foram tomadas não me parecem ter trazido nossa economia para a normalidade.

Medidas como segurar preços administrados funcionaram somente de maneira paliativa, além disso foi a nossa última bala.

Agora sabemos que o problema não foi realmente resolvido e estamos sem bala na agulha.

Até,
Roberto